Lindo texto enviado pela Mari, amiga idealizadora do Orelha do Livro.
Minha avó costumava ler para mim quando eu ainda era analfabeto. Ela tinha dois óculos. Um que usava no dia a dia, com uma armação grossa, de cor castanha. Outro de armação mais escura.
Esse, ela tirava de um estojo de tecido apenas nas ocasiões em que abria um livro para minha audição atenta. Associei uma coisa à outra. Leitura e óculos de armação escura.
Guardava esses óculos, ainda mais grossos e pesados que os outros, em uma gaveta da cômoda.
Talvez junto com o mesmo lápis com que começou a me ensinar a escrever, que segurava para que eu abraçasse sua mão com meus dedos miúdos. Juntos bailávamos o desenho das letras que eu ainda não entendia. Ela escrevia frases de que não me lembro e eu mantinha meu punho na garupa do dela.
Quem sabe por isso, hoje, eu segure a caneta de modo tão estranho. Entre minhas palavras e meus dedos, há uma mão mais idosa que a minha a manejar o leme das frases.
Um dia, sucumbi à lógica e entendi o mistério do abecedário.
Abri a gaveta, cuidadosamente tomei o estojo e levei os grossos óculos ao rosto. Entontecido pelo grau imenso das lentes, ainda assim abri um livro que separei para a ocasião.
Finalmente, depois de perceber o quanto aquilo era inútil, tirei os óculos. Fui reclamar com ela. Aparentemente, os óculos não estavam mais funcionando.
Eu continuava sem entender nada daquilo que estava nas páginas.
Por Alessandro Martins

2 Comments
Pauliieeeeeee….feliz tudo aí pra vocês….2009 promete.
bjossss
o projeto Orelha do Livro é muito bonito, adorei!!
ai, este post me fez lembrar a minha avó também… saudades
beijos