Estava eu em Porto Alegre - onde passei quase uma semana visitando a Feira do Livro e minha amiga Leda -, tomando um vinhozinho no café do sétimo andar da Casa de Cultura Mario Quintana, lendo e acarinhando o recém-adquirido Livro das Perguntas, do Pablo Neruda, traduzido pelo Ferreira Gullar e ilustrado pelo genial artista catalão Isidro Ferrer, quando me deparo com esta linda pergunta:
Se todos os rios são doces, de onde o mar tira o sal?
Mandei por sms para minha querida Babs e, para minha alegria, recebi uma linda réplica por mail (tenho amigos tão preciosos que resolvi compartilhar os escritos e carinhos com vocês):
querida camélia-flor,
muito surpresa com a tua mensagem me vi a pensar sobre o escrito durante bastante tempo. o lado racional logo fez menção às erosões iônicas e às transformações geológicas de outrora. mas, as emoções sempre se sobrepõem conosco, não é mesmo?! e remeteram o pensamento a um bonito conto, que para a minha alegria encontrei registrado pela net afora. então, antes mesmo de indagar sobre tuas razões no questionamento, partilho o conselho e a lição em palavra.
para que possamos sempre aspirar as alegrias e encontrar a coragem para persegui-las. mas nunca deixar de reconhecer a felicidade já conquistada.
te amo muito.
carinho,
babs.Era uma vez um pobre pescador português, muito pobre mas muito generoso. Tinha perdido tudo quanto possuía porque não tinha pescado nada, havia muito tempo : no mar, já não havia peixe. Cansado de tanta infelicidade, decidiu atirar-se ao mar ingrato e pôr fim à triste existência. Estava quase decidido quando se aproximou dele uma velhinha. A mulher, atenta à sua dor, ofereceu-lhe um pequeno moinho, dizendo-lhe :
- Não desesperes. Este pequeno moinho dar-te-á tudo quanto desejares e para tal basta dizeres “mói moinho”. Quando tiveres já o suficiente, dirás “pára de moer moinho”. O bom homem pensou que gostaria de viver numa casinha bonitinha, rodeada por um pequeno pomar e repetiu as palavras :
- Mói, moinho !
E o seu desejo tornou-se realidade.
Satisfeito, o homem disse então :
- Pára de moer, moinho.
…
A fama do moinho espalhou-se e chegou aos ouvidos de um vizinho rico que o pediu emprestado. No alto-mar, o vizinho que possuía um barco, dirigiu-se a terras longínquas em busca de sal. Como o sal era precioso, o homem pensou que podia aumentar a riqueza pedindo sal ao moinho.
- Mói, moinho! – disse.
De repente, começou a aparecer sal que encheu o barco até às velas. Mas com o peso, a embarcação afundou-se e com ela o capitão, e com ele o sal e com ele o moinho, que continuou a moer, a moer e a fazer aparecer sal até encher o mar imenso… até aparecer alguém que lhe disse :
- Pára de moer, moinho.
É por isso que a água do mar é salgada, já que antes era doce como a água dos rios.

3 Comments
Que lindeza essas palavras! Precisamos reunir as pessoas queridas tomar um café, comer coisinhas gostosas e botar a conversa em dia, chova ou faça sol! Beijos!
Que bela contribuição da Babs!
E olha que boa notícia: esse mês o Orelha do Livro vai sortear na rádio O Livro das Perguntas do Neruda, não é uma beleza?
“Como conciliar com os pássaros a tradução de seus idiomas? E como digo à tartaruga que eu a ganho em lentidão?”
vocês são lindas de doer!!
saudadimensa… uia!!