Sonoridades diferenciadas para o século XXI

Sonoridades Diferenciadas para o Século XXI. O terceiro dia do Festival de Música Contemporânea Aliança Francesa cumpriu à risca o mote desta primeira edição. O que esperar do encontro entre Jocy de Oliveira, Duo Paulo Passos & Joaquim Abreu, L. C. Csekö, músicos convidados, público e Banda Cabaçal dos Irmãos Anicetos, todos reunidos numa mesma noite? Diversidade de propostas estético-musicais e, ao mesmo tempo, diálogo e integração. Tradição oral mesclada a propostas de experimentalismos na contemporaneidade: o que soa mais vanguarda? Difícil responder.

A noite começou com a exibição de trechos das vídeo-óperas contemporâneas de Jocy de Oliveira, pioneira na pesquisa da linguagem multimeios no Brasil. Jocy veio a Florianópolis para o lançamento da coleção dos DVDs contendo registros de seis de suas óperas, em sete montagens, realizadas no Brasil e na Alemanha. Contou ao público um pouco de seu trabalho como compositora e artista e relembrou os ensinamentos de seu mestre, John Cage, que compôs uma peça para ela. Encerrou sua fala exibindo o poético e perturbador vídeo Noturno de um piano, em que a pianista/cantora Gabriela Geluda executa uma peça (muda) de Mozart num piano de cauda Steinway montado sobre um barco que, pouco a pouco, submerge em mar aberto. “O piano é um dos últimos ícones da nossa alta cultura, que está submergindo, massacrada pela cultura de massa”, explica.

Na segunda parte da noite, Paulo Passos, Joaquim Abreu, os músicos participantes da Oficina de Linguagem Musical de L.C.Csekö, em parceria com a platéia (que recebeu bumbos, chocalhos e garrafas d’água), foram regidos por um Csekö deliciosamente anárquico, vestindo óculos de sol e suspensórios, para uma ode à improvisação e à liberdade de criação (”dentro de uma certa ordem, é claro”).

Na terceira parte da noite, a Banda Cabaçal dos Irmãos Anicetos, descendentes dos índios cariris da região do Crato, Ceará, deram uma pequena amostra do que apresentariam na manhã do dia seguinte, no Mercado Público de Florianópolis. Com uma alegria contagiante, os dois irmãos e seus quatro sobrinhos mostraram porque são tidos como a melhor banda do gênero do Brasil. Com pífanos, zambumbas e prato, esbanjaram vitalidade (seu Raimundo nem de longe aparentava os 74 anos que atestam sua certidão de nascimento) em suas músicas e danças. “Gente, essa banda é cultural, já levou alegria pra muitas pessoas. Já esteve em Portugal, em França, em muitos lugares. Meu pai morreu com 104 anos e pediu pra que a gente continuasse com a banda. Pra fazer a vontade de meu pai, nós continuamos. De geração pra geração”, contou seu Raimundo, comovente.

O dia 04 de outubro, marcado para a apresentação da Banda Cabaçal, amanheceu chovendo. Mas, como bem lembrou Jocy de Oliveira em sua fala do dia anterior, o acaso direciona a vida, a música. E o acaso quis que levássemos os Irmãos Anicetos para dentro do Mercado Público de Florianópolis, já que em nenhum espaço público coberto da cidade era “permitido” se apresentar (fomos barrados no Ticen, e o responsável pelo espaço - privado? - informou que só seria possível tocar “ali embaixo daquela árvore”, a céu aberto). Ironicamente, dia 05 aconteceriam as eleições para a prefeitura da cidade - e o espaço de destaque prometido para a cultura, senhores candidatos? Sem autorizações e com muita vontade fechar com chave de ouro a primeira edição do festival, a Banda Cabaçal dos Irmãos Anicetos se apresentou embaixo de um guarda-sol de um box do Mercado Público. Dançaram, tocaram seus pifes, fizeram graça, molharam as sandálias de couro e as barras de suas fardas azuis. A água caindo do céu parecia não atrapalhar em nada: pelo contrário, as pessoas foram se juntando para ver aqueles seis meninos dançando na chuva. A festa foi só terminar por volta das duas da tarde, com os Irmãos tocando nas duas alas do Mercado Público e relembrando maravilhas do cancioneiro nordestino, como Asa Branca e Mulher Rendeira. Um espetáculo que vai sem dúvida ficar para sempre em minha memória.

(fotos de divulgação - em breve substituídas pelas imagens feitas durante o festival.)

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Muito obrigada a todos que fizeram acontecer esta primeira edição do Festival de Música Contemporânea. Obrigada Luiz, Martinha, Neiva, Hilário, Prim, Cachorro, Loli, Fábio. Obrigada a todos que compareceram e ajudaram a divulgar essa iniciativa. Obrigada, Alicia e Marquinhos, queridos, pela linda cobertura de imprensa. Ano que vem tem mais.

5 Comments

  1. Posted 06/10/2008 at 1:24 pm | Permalink

    Oi Paulinha
    Parabéns pelo blog, o festival estava muito bom mesmo.
    Beijão!

  2. mari sanchez
    Posted 06/10/2008 at 1:54 pm | Permalink

    meu deus, que coisa incrível o piano de cauda submergindo! aiii, queria ter visto isso de perto! beijos, flor, parabéns pela cobertura.

  3. Posted 06/10/2008 at 5:30 pm | Permalink

    Eita que foi lindo isso tudo! Ficou um gosto de quero mais! Acho acompanhar assim de perto, desde o nascimento do material gráfico até o final da última apresentação é algo que serve de estímulo! Meu sonho é que no próximo festival o público compareça mais (e olha que não por falta de cobertura da mídia) e que sobrem lugares para apresentações como as da Banda Cabaçal! Abraços a todos os que trabalharam nesse projeto e beijos para você minha flor!

  4. Posted 07/10/2008 at 5:27 pm | Permalink

    e quando eu ia comentar a pena de ter perdido essa semana de poesias, me encanto aqui através dos escritos… parabéns pelo blog, querida.

  5. Posted 24/08/2009 at 9:15 pm | Permalink

    é com grande prazer q descobri este blog.
    despeço-me com um abraço lusitano,
    mario moita, cantor de fado ao piano
    mm

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